O Brasil registrou 12.432 focos de incêndio no mês de junho deste ano. O crescimento foi 57,46% em comparação à média do mês desde 2003. Além de superar a média histórica, os dados revelam um comportamento atípico para o momento. Historicamente, agosto e setembro são os meses de maior incidência de queimadas. A constatação é da Nottus, empresa de inteligência de dados e consultoria meteorológica para negócios, que realizou um levantamento sobre as ocorrências de queimadas no território nacional.
O aumento expressivo dos casos é atribuído a uma combinação de fatores climáticos e aqueles causados através da ação humana. “Esse incremento é, em parte, consequência das condições climáticas adversas, como a precipitação abaixo da média por longos meses e a influência do fenômeno El Niño no Oceano Pacífico, caracterizado pela elevação da temperatura da superfície do mar. Além disso, o Oceano Atlântico equatorial está aquecido, o que também contribui para as queimadas”, analisa Guilherme Martins, meteorologista da Nottus especialista nesta área.
Outra questão observada através do técnico é a ação humana no contexto das queimadas. “Ao longo dos anos, temos notado uma interferência mais intensa do ser humano no meio ambiente. O aumento de casos de incêndios fora do padrão traz um ponto de atenção e de reflexão sobre a necessidade de adoção de medidas urgentes para a prevenção e o controle deste quadro endêmico no país”, instrui Martins.
Segundo dados da empresa de consultoria meteorológica para negócios, a distribuição das queimadas no mês de junho exibiu uma concentração significativa no Mato Grosso do Sul (22,02%), Mato Grosso (21,48%) e Tocantins (14,13%). O especialista aponta que, no começo do ano, o estado de Roraima já tinha apresentado altos índices de queimadas. No mês de junho, o Bioma Pantanal se destacou como a área mais afetada. Outros estados que também contribuíram para esse aumento foram Maranhão, Minas Gerais e Pará.
A média histórica de focos de incêndio no Bioma Pantanal era de 160 no mês de junho. Contudo, 2024 ultrapassou todos os índices registrados desde que o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) passou a monitorar, em 1998. O número foi de 2.639 focos, representando um aumento de 1.549% em relação à média do mês até então verificada.
O levantamento feito através da Nottus mostra ainda que, no consolidado do primeiro semestre de 2024, o Brasil contabilizou 35.938 focos de incêndios. O crescimento foi quase 54% em relação ao mesmo momento de 2023, entre 1º de janeiro a 30 de junho, quando esse número chegou a 23.356 casos no país.
Impactos – O setor elétrico é um dos principais afetados pelas queimadas. “Os focos de incêndios são o segundo maior responsável por desligamentos da rede básica, correspondendo a cerca de 12% do total. Essa situação causa transtorno dos mais variados tipos, entre eles, fechamento de aeroportos e suspensão no fornecimento de eletricidade para a população, hospitais e diversos outros estabelecimentos”, diz Alexandre Nascimento, sócio-diretor e meteorologista da Nottus. Ele conta que os meses mais frequentes para a interrupção no fornecimento de energia elétrica são agosto (20,1%), setembro (35,62%) e outubro (20,49%).
O agronegócio é outro segmento bastante impactado pelos focos de incêndio. “As queimadas causam perdas materiais significativas, destruindo lavouras, máquinas e edificações, além de representar um risco à vida e à fauna. Além disso, destroem os nutrientes do solo, prejudicando as futuras semeaduras”, destaca Nascimento.
As queimadas também geram vários danos à saúde. Atualmente, a poluição do ar é considerada uma das maiores ameaças à saúde. De acordo com a Planejamento Mundial da Saúde (OMS), 90% do povo mundial respira ar abaixo de níveis seguros. O interior do Brasil passa por esses problemas todos os anos.
“Quando há uma queimada, além da liberação de gás carbônico (CO2), são lançados também gases, como metano (CH4), monóxido de carbono (CO) e nitroso de oxigênio (N2O). A combinação entre eles e a fuligem liberada no processo causam inflamações no trato respiratório e provocam problemas à saúde pública, principalmente em crianças e idosos que sofrem com a degradação da qualidade do ar na época de queimadas”, observa Martins.
Queimadas superam média histórica e antecipam momento crítico
Fonte: Tribuna do Planalto



