Trinta anos depois de o Massacre de Eldorado dos Carajás, o Brasil volta a olhar para um dos episódios mais brutais da violência no campo. Em 17 de abril de 1996, 21 trabalhadores rurais sem-terra foram mortos através da Polícia Militar do Pará durante a desobstrução de um segmento da pista PA-150, no sudeste do estado. O grupo integrava uma mobilização do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que pressionava através da desapropriação de uma terra considerada improdutiva, uma demanda prevista na própria Constituição brasileira.
A dimensão da violência marcou o episódio como um divisor na história recente do país. Perícias e investigações apontaram execuções a queima-roupa e o uso de instrumentos cortantes contra trabalhadores já rendidos, tornando o massacre um símbolo da atuação violenta em conflitos fundiários.
Desde então, o 17 de abril passou a ser reconhecido como o Dia Internacional da Luta Camponesa, e o chamado “Abril Vermelho” reúne, todos os anos, mobilizações em defesa da reforma agrária e da justiça no campo.
Três décadas depois, a memória do massacre não se limita ao passado. Ela continua a atravessar o presente brasileiro, sobretudo no campo. A Constituição de 1988 estabelece que a propriedade deve cumprir função social e estima a reforma agrária como instrumento de redução das desigualdades. Ainda assim, o acesso à terra continua concentrado e os conflitos permanecem como parte estrutural do território nacional. Nos últimos anos, o país tem registrado milhares de disputas no campo, envolvendo terra, água e recursos naturais, além de assassinatos recorrentes ligados a essas mesmas tensões.
Esse cenário se aumenta com a expansão de atividades econômicas sobre regiões rurais. No Cerrado, por exemplo, a combinação entre produção agropecuária em larga escala e interesse sobre recursos naturais amplia a pressão sobre territórios e populações. Em Goiás, essa dinâmica se insere em uma estrutura histórica de concentração fundiária e forte influência política de grupos ligados à terra, o que preserva o tema agrário como um dos pontos sensíveis do debate público.
É neste contexto que a memória de Eldorado dos Carajás encontra o presente. Neste 17 de abril, atos realizados em diferentes regiões do país relembram a memória dos mortos de 1996, mas também servem de reflexão acerca do acesso à terra e das formas de repressão.. Em Goiás, a prisão do vereador Fabrício Rosa durante uma manifestação pacífica em memória das vítimas adiciona um elemento contemporâneo a esse quadro, ao recolocar em debate os limites da atuação policial e o direito à livre manifestação.
A coincidência entre memória e repressão é simbólica, e expõe permanências de uma época que é, ao mesmo tempo, paradoxalmente distante mas ainda muito perto. Trinta anos depois, o país que reconhece de forma oficial a data como marco da luta através da terra ainda convive com tensões semelhantes às que levaram ao massacre. Se, em um ato público e visível, um representante eleito pode ser detido, a realidade de trabalhadores anônimos, em particular no campo, se mantém ainda mais carente.
A memória de Carajás, portanto, é lembrança e funciona como medida de tempo e de continuidade. E, ao atravessar Goiás neste 17 de abril, levanta uma pergunta que continua sem resposta definitiva: o Brasil mudou a forma de lidar com a luta através da terra ou unicamente parou de falar sobre onde ela continua a ser reprimida?
Abril Vermelho e Memória Rosa: Massacre de Eldorado dos Carajás completa 30 anos e expõe permanência da violência no campo
Fonte: Tribuna do Planalto


