Os movimentos registrados nos últimos dias na base governista deixaram mais claro o papel que o vice-governador Daniel Vilela (MDB) passou a desempenhar na construção da sucessão estadual. Com vários nomes se movimentando em busca de espaço na chapa majoritária, o desafio da articulação deixou de ser a ampliação de alianças e passou a ser administrar expectativas dentro do próprio grupo que sustenta o governo Ronaldo Caiado.
Esse protagonismo foi delineado através da saída de Ana Paula Rezende do MDB para compor a pré-candidatura de Wilder Morais ao governo através do PL. A movimentação, apesar de minimizada por dirigentes do MDB, abriu um flanco político na base governista e reforçou a necessidade de Daniel assumir pessoalmente a condução das negociações dentro da aliança.
A reavaliação sobre múltiplas candidaturas ao Senado tornou-se o principal eixo dessa acomodação, e se desdobra para a formação de chapas proporcionais e para a vaga de vice. Na definição dos nomes da primeira-dama Gracinha Caiado (UB), do senador Vanderlan Cardoso (PSD) e a costura de Vilela para lançar Zacharias Calil através do MDB ao Senado, ficaram de fora Alexandre Baldy e Gustavo Mendanha.
A entrada de Zacharias Calil no MDB, articulada diretamente por Daniel, teve efeito imediato no tabuleiro eleitoral. O deputado vinha conversando com o PSDB de Marconi Perillo e chegou a ser cuidado como plausível reforço para a oposição. Ao trazê-lo de volta para a base, o vice-governador habilitou as opções do grupo para o Senado e retirou do tucanato um nome que poderia dar densidade à chapa de Marconi.
Ao mesmo tempo, o movimento expôs o tamanho do desafio interno da base, estabelecida por partidos e chefias com trajetórias e interesses próprios.
O próprio Mendanha deixou claro nos últimos dias que não pretende disputar uma vaga na Câmara dos Deputados e, sem espaço imediato na disputa ao Senado, passou a mirar a vice-governadoria como alternativa política dentro da base. O páreo já reúne nomes como o do secretário de Governo, Adriano da Rocha Lima, do presidente da Faeg, Zé Mário Schreiner, do ex-senador Luiz do Carmo, e de representante do sudoeste goiano e do Entorno do Distrito Federal.
Em entrevista à Tribuna (páginas 4 e 5), o presidente metropolitano do MDB, Andrey Azeredo, comenta o peso dessa escolha sob a ótica do ganho eleitoral, e pondera que o eleitor vai nortear o perfil que deseja. Instado a comentar, ele menciona o peso eleitoral do agronegócio e do segmento evangélico, este último responde por em torno de 30% dos votos. Ao impedir associar a escolha a um grupo específico, ele aposta que existe tempo para conversas e composições e diz que o nome deve ser construído em acordo com os partidos da aliança e aparecer só nas convenções, no mês de agosto.
A tarefa de Daniel, portanto, passou a ser menos a de ampliar a base e mais a de preservar sua unidade. A multiplicação de pré-candidaturas ao Senado funciona, neste contexto, como instrumento de acomodação temporária de chefias e partidos apoiadores.
Ao manter essas alternativas abertas, a estratégia funciona, por enquanto, como mecanismo de acomodação interna. Enquanto nomes se mantêm no radar do Senado ou da vice, Daniel ganha tempo para administrar interesses e impedir rupturas. No grupo governista, a leitura é que a disputa real pelas vagas só ocorrerá mais adiante, quando o calendário eleitoral diminuir o espaço para ambições simultâneas e obrigar as decisões finais.
Marconi aposta em fissuras na base governista para encorpar disputa
Sem conseguir, até o momento, ampliar de forma visível sua rede de apoios, o ex-governador Marconi Perillo (PSDB) tem apostado no desgaste natural da ampla base política que sustenta o governo Ronaldo Caiado como caminho para tornar viável sua candidatura ao Palácio das Esmeraldas em 2026. Neste cálculo, a disputa interna por espaços na chapa de Daniel, particularmente nas vagas ao Senado e à vice-governadoria, poderia produzir insatisfações e rearranjos capazes de abrir espaço para novas composições políticas.
A defesa do tucanato é de que a pré-campanha não deve pautar as ações com o calendário dos opositores porque as definições acabarão produzindo insatisfações e rearranjos capazes de abrir espaço para sua chapa. Até o momento, as movimentações indicam esforço concentrado de Daniel Vilela para impedir exatamente esse tipo de fissura.
Embora tenha retomado presença no debate estadual desde que reassumiu a presidência nacional do PSDB, Marconi ainda não conseguiu traduzir essa movimentação em uma rede visível de novas adesões. Nos bastidores, no entanto, a estratégia se mantém baseada em um cálculo político mais paciente.
Aliança arranhada
Se, por um lado, novas adesões ao projeto tucano ainda não apareceram, por outro apoiadores também enxergam indicações de desgaste na tentativa de reorganizar o campo político em torno de Marconi. Um desses episódios envolve a vereadora Aava Santiago (PSB), que afirmou ter recebido “com surpresa” a notícia de que o PSDB ingressou na Justiça Eleitoral pedindo seu mandato depois de sua saída da legenda.
A parlamentar afirmou ter tomado conhecimento da ação exclusivamente através da imprensa e relembrou a construção com Marconi para sua mudança partidária. O fato ganhou peso político porque Aava vinha sendo destacada como uma das articuladoras locais da candidatura de Marconi em Goiânia e relatou que mantinha conversas diretas com a direção tucana sobre sua saída do partido.
O pedido judicial acabou sendo interpretado por interlocutores como um ruído neste processo de recomposição que gerou eco na Câmara Municipal de Goiânia. Em plenário, o vereador Markim Goyá (PRD) saiu em defesa de Aava e mencionou conversas mantidas com a parlamentar sobre a possibilidade de apoio ao projeto político do ex-governador, episódio que expôs as tensões e incertezas que ainda cercam a reorganização do campo oposicionista no estado.
Daniel age para administrar ambições e impedir novas dissidências
Fonte: Tribuna do Planalto



