Neste ano, Goiás vive uma curiosidade eleitoral: a vaga de candidato a vice-governador vale tanto quanto a vaga de candidato a governador. Ocorre que Ronaldo Caiado (PSD) pretende se afastar brevemente, em 31 de março, para tentar construir sua candidatura a presidente da República. O vice, Daniel Vilela (MDB), se tornará governador e concorrerá à reeleição em 2026. Então, em 2030, não conseguirá ser reeleito outra vez — o candidato natural da base pode ser o vice de Daniel Vilela, aquele que fica sendo escolhido agora.
Para o vice do vice, portanto, o cenário é promissor. Não à toa, desde 2024, os nomes se colocam à disposição e defendem que são justamente aquilo que falta para a base se consagrar. Vale a pena verificar os méritos e as falhas na argumentação de cada um desses atores, e os critérios para a seleção do vice. Apesar disso, o nome deve ser anunciado exclusivamente no mês de agosto, no período limite. Apontar o vice antes seria cometer dois erros: expô-lo a desgaste desde já e fechar as portas para postulantes interessados em fazer alianças.
Se o critério for a dívida pelos serviços prestados, Gustavo Mendanha chegou primeiro. Depois de ter disputado o governo do estado contra Ronaldo Caiado em 2022, o ex-prefeito de Aparecida de Goiânia se aproximou gradualmente da base governista e se filiou ao MDB em 2024, atribuindo publicamente a escolha do partido à amizade com Daniel Vilela. Depois, foi para o PSD quando o partido ainda não caminhava com o governo. Naquela data, junho de 2025, Vanderlan Cardoso era o presidente da sigla no estado, e estava em confronto com a base governista por motivo da eleição do município de Goiânia.
Mendanha deu a sorte de ter ido parar no partido que receberia Caiado? Muito através do contrário — a aproximação do Partido Social Democrático da base foi em grande parte obra sua. O presidente do PSD, Gilberto Kassab, afirmou que a filiação do ex-prefeito de Aparecida de Goiânia e da ex-primeira-dama ao PSD era “o pontapé pro PSD e Caiado caminharem juntos”. O ato de filiação do governador Ronaldo Caiado ao PSD, que ocorreu no sábado passado (14) em Jaraguá, se deveu em parte a Mendanha, e por esses louros o ex-prefeito pode ter conseguido créditos o suficiente para se tornar o vice de Daniel Vilela.
Os concorrentes de Gustavo Mendanha apontam o fato de que o político é jovem, moderno, carismático — enfim, tem perfil semelhante ao de Daniel Vilela, o que faz com que compartilhem parte do eleitorado e somem votos de menos demografias. Entretanto, como vice, Mendanha poderia somar de outras formas: é da área metropolitana enquanto Vilela é do sudoeste; é evangélico; tem capital eleitoral da última disputa. A própria juventude pode dar a ideia de renovação sem que isso represente uma ruptura com o bem avaliado governo atual.
Se o critério for técnico, Adriano da Rocha Lima (Secretaria-Geral de Governo) e Fátima Gavioli (Seduc) são nomes importantes e que já assinaram fichas de filiação ao PSD, embora o registro das filiações ainda não tenha sido oficializado através da direção partidária. O movimento de acompanhar o atual governador reforça a ideia de que Fátima Gavioli e Adriano da Rocha Lima podem concorrer à vice de Daniel Vilela enquanto preserva a unidade dos partidos da base (MDB e PSD agora, anteriormente MDB e UB). Em particular, Adriano da Rocha Lima atuaria neste sentido, por ser um nome de confiança do governador.
Fátima Gavioli foi responsável pelos bons resultados no Ideb, e Adriano da Rocha Lima é um dos principais articuladores do governo. Ambos teriam menos peso eleitoral que seus concorrentes políticos de carreira, mas vale lembrar que a pesquisa Real Time Big Data publicada na na última quarta-feira (18) demonstrou que Daniel Vilela venceria todos seus principais concorrentes em um hipotético segundo turno através do governo de Goiás. Neste contexto, a necessidade eleitoral do vice diminui.
Se Caiado e Vilela entenderem que a disputa já fica direcionada mesmo sem a contribuição de um vice, podem preferir um quadro leal e capaz de auxiliar a gestão durante o mandato. Afinal, agregar esforços com uma potência eleitoral é conveniente durante a disputa de agora, mas controlar ambições políticas futuras é sempre arriscado.
Se o critério for regional, o Entorno de Brasília tem um apelo forte. Com com 725 mil eleitores, a Área Integrada de Desenvolvimento do Distrito Federal (Ride) tem 15% do eleitorado de Goiás. Pleiteiam a vice Wilde Cambão (PSD), Pábio Mossoró (MDB), Carlinhos do Mangão (PL) e outros. Entretanto, a força dos postulantes do Entorno também é sua fraqueza: a área já é alinhada à base governista. Para um candidato a governador, agregaria pouco escolher o representante de um eleitorado que já fica em seu barco.
Outra área que pode ser contemplada é aquela onde se concentra o agro, os grandes produtores e o poder econômico: o Sudoeste Goiano. Paulo do Vale (UB), ex-prefeito de Rio Verde é o mais cotado. Ou talvez, se Daniel Vilela mira conquistar apoio da elite econômica do estado, o representante do agronegócio escolhido seja o presidente da Federação da Agricultura do Estado de Goiás (Faeg), José Mário Schreiner (MDB), com quem o vice-governador chegou seguido no acontecimento do sábado passado, em Jaraguá.
Por final, na intenção de consolidar outros eleitorados, o critério pode ser o perfil religioso. De acordo com os dados do Censo Demográfico do IBGE de 2022, Goiás tem mais evangélicos do que a média brasileira: são 26,9% no país e 32,6% no estado; e a religião foi a que mais cresceu entre todas, indo de 19,5% para 32,6% em 22 anos. Essa característica do eleitorado torna atrativo para as chapas a presença de um candidato evangélico. Neste sentido, o principal nome é Luiz Carlos do Carmo (Podemos), ex-senador, e ex-suplente de Ronaldo Caiado. Ele é irmão de Oídes José do Carmo, principal representante da Assembleia de Deus em Goiás.
E se o PSD escolher outro?
Para Caiado, o asterisco é o fato de que o plano de concorrer à Presidência pode ser frustrado antes mesmo do dia 31. De acordo com a Folha de S.Paulo, o presidente do PSD, Gilberto Kassab, pretende anunciar Ratinho Jr. como pré-candidato do partido ainda nesta semana. Kassab desejaria acelerar a difusão para confrontar desde já Flávio Bolsonaro (PL), que se consolida como oposição, e Ratinho Jr. seria o favorito por estar filiado existe mais tempo e aparecer melhor nas pesquisas.
Caiado então deixaria de renunciar? Não. A promessa foi feita publicamente no mês de agosto de 2025 e, desde então, Daniel Vilela vem assumindo progressivamente as funções no governo. Na prática, já governa. Se Ratinho Jr. for o escolhido do PSD, é capaz que um dos pré-candidatos a senador da base governista tenha de ceder a vaga para Ronaldo Caiado: Vanderlan Cardoso (PSD), Zacharias Calil (MDB) ou Gracinha Caiado (UB).
Entenda os critérios para a escolha do vice de Daniel Vilela, que já projeta 2030
Fonte: Tribuna do Planalto



