Projetado para transformar Anápolis em um dos principais polos logísticos do país, o Aeroporto de Cargas da cidade continua sem operar mesmo depois de anos de investimentos públicos e sucessivas promessas de desenvolvimento econômico. A estrutura, iniciada em 2010, se mantém sem utilização prática e hoje enfrenta problemas que vão desde passivos ambientais até o uso irregular da pista por motociclistas.
Na tarde desta quarta-feira, moradores registraram em vídeo um motociclista realizando manobras perigosas na pista abandonada, incluindo empinar o veículo sobre exclusivamente uma roda. A prática é considerada infração através do Código de Trânsito Brasileiro (CTB) e pode representar riscos tanto para quem faz as manobras quanto para outras pessoas que circulam próximo. O episódio evidencia a situação de ociosidade do espaço, que necessitaria estar voltado a operações logísticas.
O projeto do aeroporto de cargas surgiu com a proposta de ampliar a capacidade de transporte de mercadorias em Goiás e fortificar a posição estratégica de Anápolis, localizada entre importantes corredores rodoviários e próxima a centros como Goiânia e Brasília. A expectativa era que a infraestrutura atraísse empresas de logística, estimulasse a geração de empregos e consolidasse o município como um hub de distribuição.
No entanto, o empreendimento confrontou várias obstáculos desde sua construção. A obra da pista de cargas, iniciada através do governo estadual entre 2010 e 2012, foi marcada por paralisações, disputas judiciais e revisões contratuais. O custo inicial foi presumido em R$ 94,1 milhões, com um aditiverior de R$ 46,5 milhões. Reportagens publicadas durante dos anos indicam que os gastos totais podem ter ultrapassado R$ 300 milhões, sem que o projeto tenha sido concluído ou colocado em funcionamento.
Outro fator que contribuiu para o impasse envolve questões ambientais. Estudos técnicos da Agência Goiana de Infraestrutura e Transportes (Goinfra) apontaram falhas na execução do sistema de drenagem pluvial previsto no projeto original. O problema provocou degradação ambiental em uma área estimada em 160 hectares — equivalente a em torno de 224 campos de futebol — incluindo processos erosivos, assoreamento e formação de voçorocas, consideradas a forma mais grave de erosão.
Diante desse cenário, o governo de Goiás iniciou uma obra de recuperação ambiental orçada em R$ 38 milhões. Os trabalhos incluem a instalação de drenagem adequada, correção de erosões, reconstrução da cabeceira da pista, desassoreamento de cursos d’água e reflorestamento de regiões de preservação permanente. Também estão previstas medidas de terraceamento para aumentar a infiltração da água da chuva e impedir novos danos ao solo.
A intervenção é considerada necessária para que a área possa ser regularizada ambientalmente e devolvida à Infraero, empresa que assumiu a gestão do sítio aeroportuário de Anápolis no final de 2024. Apenas depois de a conclusão das obras de recuperação será plausível discutir novos projetos para o espaço.
Enquanto isso, a Infraero concentra seus investimentos no aeroporto civil da cidade. A estatal afirma ter aplicado em torno de R$ 900 mil na primeira fase de melhorias, com foco no terminal de passageiros e no cercamento do aeródromo. As intervenções incluíram modernização da iluminação para tecnologia LED, reparos estruturais no telhado, substituição de vidros e pintura interna e externa do terminal.
Para os próximos anos, o plano da empresa estima outras obras, como recuperação dos andares da pista principal, do pátio e da taxiway, implantação de sinalização horizontal e instalação da Área de Segurança na Extremidade da Pista (RESA), exigida pelas normas da aviação civil. Uma segunda etapa de reformas no terminal de passageiros também fica prevista.
Apesar dessas melhorias, a situação da pista destinada ao aeroporto de cargas se mantém indefinida. A Infraero afirma que o local ainda não tem homologação e, por isso, não é reconhecido de forma oficial como um aeroporto de cargas através da empresa.
A ausência de uso da infraestrutura também levanta preocupações relacionadas à segurança e à preservação do patrimônio público. Com a pista sem operação e pouco movimento, episódios como o registrado nesta semana tornam-se mais frequentes, evidenciando a falta de controle sobre uma área que recebeu investimentos expressivos durante dos anos.
Para moradores e chefias locais, o caso simboliza uma promessa que ainda não se concretizou. A expectativa de que o aeroporto impulsionasse o desenvolvimento econômico da área se mantém em suspenso enquanto o projeto aguarda definições administrativas, ambientais e estruturais.
Passados 16 anos desde o começo das obras, o Aeroporto de Cargas de Anápolis continua como uma infraestrutura incompleta. Enquanto as intervenções ambientais avançam e os debates sobre seu futuro seguem, a pista se mantém sem função definida — um contraste entre o investimento feito e a ausência de operações efetivas até o momento.
Apesar de investimentos, Aeroporto de Cargas continua em aspecto de abandono
Fonte: Tribuna do Planalto



