A base política construída por Ronaldo Caiado em Goiás é, sem exagero, uma das maiores já vistas na política recente do Estado. Nem mesmo Marconi Perillo, no auge de sua força e capilaridade, conseguiu unir tamanha previsão institucional e territorial. O caiadismo hoje se apoia em uma ampla maioria dos deputados federais e estaduais, prefeitos, vereadores e chefias locais espalhadas por praticamente todos os municípios goianos. Juntos, União Brasil, MDB e partidos apoiadores — muitos deles orbitando pragmaticamente o centro do poder — controlam quase a totalidade das máquinas públicas em Goiás, do Palácio das Esmeraldas às câmaras de vereadores das menores cidades do interior.
Esse poder institucional é reforçado por um ativo político decisivo: a alta aprovação popular de Ronaldo Caiado. O governador conseguiu consolidar não somente uma imagem pessoal positiva, mas também uma narrativa favorável sobre seu governo, associada à ideia de firmeza administrativa, estabilidade política e resultados concretos. Esse capital simbólico se transfere, em grande medida, para o projeto de continuidade do grupo governista.
Neste contexto, o atual vice-governador Daniel Vilela surge como peça central do tabuleiro. Com o afastamento de Caiado — seja para uma disputa nacional ou para o Senado — Vilela assumirá o governo nos próximos meses, passando a ocupar uma posição estratégica para a eleição estadual. Diferentemente de outros nomes testados nas urnas, ele não carrega grandes desgastes políticos acumulados e tem uma imagem pública ainda em construção, aberta a múltiplas leituras e narrativas. Isso lhe dá flexibilidade e margem de crescimento eleitoral.
A esse cenário já favorável soma-se um movimento que pode ser decisivo: a abertura de negociação do deputado federal Gustavo Gayer, figura polêmica, apesar disso altamente famoso no campo da direita, para uma disputa ao Senado dentro da base do governo Caiado. Em Goiás, é notória a força da direita e da extrema direita, segmentos nos quais Gayer exerce chefia não somente estadual, mas com alcance nacional. Sua presença é marcante em redes sociais, entre setores do agronegócio, em parcelas expressivas do eleitorado evangélico neopentecostal e, sobretudo, no núcleo duro do bolsonarismo goiano. Gayer arrasta votos, mobiliza militância e impõe narrativa.
Caso essa aliança entre o PL e o grupo de Caiado se consolide, o efeito prático será o fechamento quase completo do campo da direita goiana em torno da candidatura governista. Daniel Vilela passaria a contar não somente com a força institucional de uma base robusta, mas também com a legitimação ideológica de praticamente todo o espectro da direita — da mais moderada e liberal à mais radical e bolsonarista. A oposição perderia espaço de penetração neste campo, ficando sem discurso competitivo junto a um eleitorado que, historicamente, é majoritário no Estado.
O resultado dessa convergência é poderoso: força política institucional e narrativa ideológica caminhando juntas. Poucas vezes Goiás assistiu a uma configuração tão favorável a um grupo político às vésperas de uma eleição estadual.
No campo oposicionista, diante de uma eventual unificação ampla da direita, restaria basicamente a disputa através do eleitorado de esquerda e centro-esquerda. Trata-se de uma equação complicada. Os candidatos desse campo precisarão construir viabilidade eleitoral sem perder a capacidade de dialogar com setores mais conservadores que, eventualmente, se coloquem em oposição ao governo — um eleitor raro, disperso e pouco coordenado.
É verdade que o jogo ainda fica sendo jogado. Alianças podem ruir, nomes podem surgir, crises podem alterar cenários. Mas uma coisa é certa: o ano eleitoral já iniciou. As peças estão em movimento, e o tabuleiro político de Goiás começa a revelar, com mais nitidez, quem joga com vantagem e quem terá de arriscar movimentos ousados para permanecer na disputa.
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A hegemonia caiadista e a unificação da direita: o novo tabuleiro eleitoral em Goiás
Fonte: Tribuna do Planalto



