Falar sobre o óbito ainda é um tabu para muitas famílias, mas especialistas apontam que impedir o tema pode tornar a despedida ainda mais difícil. Em meio a esse cenário, cresce a reflexão sobre a necessidade do cuidado emocional no final da vida — um processo que vai além do tratamento médico.
A chamada “doula da morte” é uma das formas de proporcionar esse suporte. O trabalho consiste em acompanhar pessoas em fase terminal e suas famílias, preservando escuta, presença e acolhimento em um dos momentos mais sensíveis da vida.
O termo ganhou destaque depois de a atriz americana Nicole Kidman dizer que deseja ser uma doula da morte. A constatação veio depois de Nicole sofrer o luto da perda da mãe, aos 84 anos. “Ela estava sozinha, e havia um limite para o que a família conseguia fazer”, explicou.
Kidman contou que, durante os últimos momentos de vida da mãe, sentiu falta de um apoio externo. “Eu pensei: gostaria que existissem pessoas que pudessem estar ali, de forma imparcial, oferecendo conforto e cuidado”, afirmou.
Para a psicóloga Dra. Grisiele Silva, o principal papel desse cuidado é impedir que o processo de morrer seja solitário. “A doula da morte nos lembra que ninguém deveria atravessar o fim da vida em solidão — presença, nesse momento, é uma forma profunda de amor.”
Um novo olhar sobre a despedida
Mais do que um momento de dor, a despedida poderá também ser um espaço de conexão e significado, quando existe acolhimento emocional. “A morte não precisa ser apenas dor e desespero. Quando há acolhimento, ela também pode ser um espaço de despedidas significativas e conexões verdadeiras.”
De acordo com a especialista, permitir que a pessoa seja ouvida e respeitada até o final é essencial para uma experiência mais digna. “Existe algo muito potente em poder ser visto, ouvido e respeitado até o último momento — e é isso que a doula da morte oferece.”
As doulas da morte são, portanto, profissionais não médicas que atuam concedendo apoio emocional, espiritual e prático a pessoas em fase terminal.
O acompanhamento não se limita ao paciente. Familiares também recebem suporte, principalmente durante o processo de despedida e no enfrentamento do luto.
Na prática, esse cuidado pode ocorrer em diferentes ambientes, como residências, hospitais ou instituições de longa permanência. O foco fica em preservar presença, escuta e acolhimento em um momento programado por fragilidade e incertezas.
A proposta é tornar o final da vida menos solitário, respeitando os desejos da pessoa e auxiliando a família a atravessar esse momento com mais compreensão e apoio.
Diferentemente de profissionais de saúde, como médicos e enfermeiros, as doulas não realizam procedimentos clínicos.
No Brasil, já existe reconhecimento legal para doulas no acompanhamento da gestação e do parto. No entanto, o trabalho no final da vida ainda não conta com regulamentação específica.
Em outros países, como Estados Unidos, Canadá, Austrália e Reino Unido, o cenário é semelhante. A atuação existe e é praticada, mas continua coordenada por cursos, associações e orientações próprias, sem leis específicas.
Impacto para quem fica
O cuidado no final da vida não impacta somente quem fica partindo. Ele também influencia diretamente a forma como familiares e pessoas próximas vão lidar com a perda.
“Quando alguém é acompanhado com sensibilidade no fim da vida, o luto de quem fica também encontra mais espaço para ser vivido com menos culpa e mais sentido.”
Esse processo, segundo especialistas, pode auxiliar a diminuir sentimentos de arrependimento e melhorar a elaboração do luto.
Humanizar também é cuidar
Em um contexto em que o óbito ainda é cercada de silêncio, falar sobre o tema é um passo importante para transformar a forma como a sociedade encara a despedida. “Humanizar a morte é, na verdade, um dos gestos mais profundos de cuidado com a vida.”
A presença, neste momento, pode fazer toda a diferença — principalmente quando existe medo, falta de segurança e sofrimento. “A doula da morte ajuda a transformar o silêncio, o medo e a solidão em presença, escuta e afeto.”
Espaço para despedidas mais conscientes
Para a psicóloga, abrir espaço para falar sobre o óbito é também permitir que as despedidas sejam mais conscientes e, muitas vezes, mais leves emocionalmente. “Permitir-se falar sobre a morte é abrir espaço para despedidas mais conscientes — e, muitas vezes, mais amorosas.”
“Ninguém deveria morrer sozinho”: Nicole Kidman traz à tona o papel da doula da morte
Fonte: Tribuna do Planalto



