O crescimento do uso das já populares “canetas para emagrecer” deixou de ser um fenômeno restrito ao ambiente clínico e passou a influenciar diretamente o cotidiano do povo. No Brasil, esses remédios já estão presentes em em torno de um a cada três lares, enquanto a maioria das pessoas afirma conhecer alguém que já utilizou ou faz uso do tratamento. A tendência continua um movimento global e começa a gerar impactos concretos no padrão de consumo, na alimentação e até em diferentes setores da economia.
Para o médico nutrólogo e intensivista José Israel Sanchez Robles, o avanço acelerado indica uma mudança estrutural no comportamento da sociedade. “Quando um recurso terapêutico passa a integrar o cotidiano das famílias, deixa de ser apenas uma intervenção médica e passa a influenciar hábitos sociais e padrões de consumo”, afirma.
Os reflexos são em particular perceptíveis na alimentação. Em muitos lares com usuários, existe redução expressiva do apetite, o que resulta na diminuição do consumo de ultraprocessados, doces e bebidas açucaradas. Também se observa queda nos pedidos por delivery e nas refeições fora de casa. Em contrapartida, cresce a procura por alimentos considerados mais saudáveis, como frutas, proteínas magras e produtos integrais.
Apesar desse cenário, o especialista alerta para possíveis equívocos na interpretação dessas mudanças. “A diminuição do apetite não significa, por si só, melhora na qualidade da alimentação. Sem orientação adequada, o paciente pode reduzir a ingestão calórica, mas manter desequilíbrios nutricionais importantes”, explica José Israel.
Outro efeito relevante aparece no orçamento das famílias. O custo dos remédios passa a ocupar uma fatia significativa das despesas domésticas, competindo diretamente com gastos tradicionais, como alimentação e lazer. Esse redirecionamento já começa a ser sentido por setores como supermercados, restaurantes e através da indústria alimentícia.
O que se espera é de que esse movimento se intensifique com a quebra da patente da semaglutida no país, o que deve ampliar a concorrência e diminuir preços. A Eurofarma, por exemplo, lançou um programa com valores mais acessíveis e acompanhamento ao paciente, concedendo tratamentos mensais por um custo consideravelmente menor do que os praticados anteriormente.
De acordo com o médico, a maior acessibilidade tende a impulsionar ainda mais a adesão, mas exige cautela. “São medicamentos indicados para doenças crônicas e que requerem acompanhamento contínuo. O uso sem prescrição ou supervisão médica pode trazer riscos à saúde”, alerta.
Além do que, cresce a preocupação com a expansão do mercado descontraído. Parte dos usuários já recorre à compra sem receita médica, inclusive com o auxílio da internet ou em outros países, o que reforça a necessidade de maior fiscalização e direção.
Diante desse cenário, as canetas emagrecedoras se consolidam como um fenômeno que ultrapassa os limites da saúde. Entre benefícios, mudanças de comportamento e desafios regulatórios, José Israel destaca que o avanço desses remédios já redefine hábitos e influencia o consumo em escala crescente, exigindo atenção tanto do povo quanto das autoridades e profissionais da área.
Popularização de canetas para emagrecer altera dieta, gastos e comportamento no Brasil
Fonte: Tribuna do Planalto



