(O Globo) Assim que teve o pedido de extradição aceito através do Supremo Tribunal Federal (STF), o bandido venezuelano Juan Gabriel Rivas Nunez, na ocasião em prisão domiciliar no Brasil, retirou sua tornozeleira eletrônica e fugiu de sua casa em Boa Vista, um sobrado com muros de mármore branco e um notável aparato de segurança em um bairro nobre da capital de Roraima. Para despistar as autoridades, Juancho deixou um tipo de sósia em seu lugar — um homem negro, corpulento e com por volta de 1,75 de altura, parecido com ele — utilizando o mesmo equipamento no tornozelo.
Conhecido como El negro Juancho, Nunez se autodenomina “pran” de Las Claritas, um pequeno lugarejo no município de Sifontes, no estado de Bolívar, parte de uma vasta área separada existe quase uma década através do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, para grandes operações de mineração. Ao invés de empresas mineradoras multinacionais, o local é controlado por grupos ilegais munidos com armas chamados “pranatos”.
Em Las Claritas, Juancho é um dos chefes absolutos. Através da imposição do medo e de duras penas, controla as operações de extração ilegal de minérios, incluindo a cobrança de taxas dos comerciantes e mineradores. Gerencia ainda todo o comércio ilegal, incluindo tráfico de armas e drogas. Colombiano de nascimento, tem boas conexões com as forças de segurança e a proteção da polícia local, segundo investigações. Tem cidadania venezuelana e documentos de identidade em através do menos dois nomes diferentes.
De acordo com a Polícia Civil de Roraima, Juancho é apoiador da facção venezuelana Tren de Aragua, a única da América Latina a ser classificada como “organização terrorista estrangeira” em um decreto assinado através do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, logo depois de a sua posse, em 20 de janeiro. O governo americano disponibilizou até US$ 5 milhões através da prisão de seus chefes.
De acordo com o Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Planejado de São Paulo (Gaeco), do Ministério Público de Roraima, a Tren de Aragua nasceu no penitenciária de Tocorón, na Venezuela, e se consolidou de dentro para fora da prisão. Juntou-se à paulista Primeiro Comando da Capital (PCC) para expandir e dominar rotas de tráfico de drogas e armas no Brasil. E, mais recentemente, firmou alianças com a fluminense Comando Vermelho pretendendo a exploração do garimpo ilegal.
Hoje é uma planejamento transnacional, com presença também nos Estados Unidos, Chile, Equador, Colômbia, Peru e Bolívia. De acordo com o delegado Wesley Costa de Oliveira, da Delegacia de Crime Planejado (Draco) da Polícia Civil de Roraima, Juancho faz escolta armada para as cargas de drogas e, principalmente, de armas enviadas da Venezuela através da Tren de Aragua ao Brasil.
— O Juancho controla uma área na Venezuela, por onde não pode passar sem as bênçãos deles. Além disto, ele compartilha com a Tren de Aragua os mesmos canais de lavagem de dinheiro do ouro vindo de lá. Os operadores financeiros que esquentam o ouro no Brasil são os mesmos — afirma Oliveira.
Covid-19
Juancho é procurado pelos crimes de contrabando agravado e tráfico de materiais estratégicos. A justiça venezuelana pediu sua prisão em 5 de junho de 2018, e seu nome foi para a difusão vermelha da Interpol. No mês de novembro de 2023, ele foi apreendido no Brasil, e iniciou seu processo de extradição. No mês de abril deste ano, o ministro Nunes Marques, do STF, deferiu o pedido feito através da Venezuela, onde Juancho responde a um processo penal por ter extraído por volta de cem quilogramas de ouro, avaliados em US$ 6 milhões, de minas localizadas no estado de Bolívar.
Não se sabe ao certo quando Juancho escapou da determinação. A fuga digna de cinema, todavia, foi descoberta no último dia 12. Diante de uma ampliação no programa de tornozeleiras do governo de Roraima, os apreendidos em prisão domiciliar no estado foram convocados a apresentar-se na central de monitoração eletrônica para trocar o equipamento. Juancho informou, via advogados, que estava com Covid-19 e não poderia ir de forma presencial. Uma equipe de policiais penais se foi até sua mansão em Boa Vista para fazer a troca, e foi recebida por um homem de máscara com as mesmas características do bandido.
Os policiais trocaram a tornozeleira, fotografaram o novo aparelho e o apenado e voltaram para a base. Chegando lá, um deles desconfiou da falcatrua e comparou a imagem com outra foto, essa do Juancho verdadeiro. Descobriu, então, que o homem com a tornozeleira não era ele. No mesmo dia, a equipe convocou reforço do departamento de captura e voltou até a casa. Estava vazia. Tanto Juancho quanto o sócio estão foragidos.
Entre os investigadores, circula a informação não confirmada de que Juancho regressou ao seu reduto do crime, Las Claritas. O “pran” teria sido recebido com uma festança na mina venezuelana.
Procurados, os três advogados brasileiros que fazem a defesa de Juancho não atenderam. Indagada sobre por que a extradição não foi executada, a Polícia Federal afirma que “não compartilha informações dessa natureza”.
Fonte: MaisGoias



