A Bayer prepara a inauguração de um novo herbicida que será vendido primeiro no Brasil. O icafolin-metil surge como uma aposta da gigante alemã contra a crescente resistência de pragas aos agrotóxicos disponíveis no mercado.
O produto também representa uma resposta às acusações de que o Roundup, um dos principais insumos agrícolas da empresa, estaria associado ao desenvolvimento de câncer em seres humanos. O Roundup tem como princípio ativo o glifosato e é um dos agrotóxicos mais populares do mundo.
Alvo de 192 mil processos somente nos Estados Unidos, o herbicida já consumiu ao menos US$ 11 bilhões da companhia em acordos judiciais. Por isso, o novo produto chega em um momento delicado para a empresa.
Registro no Brasil tramita com prioridade
O icafolin-metil já recebeu o aval toxicológico da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Em 6 de maio, membros da diretoria colegiada da agência aprovaram de forma unânime o princípio ativo do produto.
Para o uso técnico e comercial, no entanto, faltam as aprovações do Ministério da Agricultura (Mapa) e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Esses processos tramitam com prioridade no governo federal.
O Ministério da Agricultura já anunciou que o agrotóxico terá prioridade no processo de registro. Desse modo, ele passará à frente de centenas de outros produtos que aguardam aprovação. A pasta justificou a decisão falando se tratar de um novo mecanismo de ação contra plantas daninhas.
O Ibama afirmou por e-mail que ainda não iniciou a avaliação técnica do icafolin. De acordo com o site da agência, existem 1.308 processos à frente na fila – embora isso possa mudar.
Desde que pediu o registro, a Bayer teve 62 agendas com órgãos do governo federal. Isso representa uma média de três reuniões por mês.
Produto já gera preocupação entre especialistas
Mesmo antes de ser vendido, o novo herbicida já liga o alerta entre ambientalistas e especialistas. Assim como ocorre com o glifosato, as preocupações giram em torno dos potenciais impactos sobre o meio ambiente e a saúde pública.
“Até agora, a empresa revelou muito pouco, o que é preocupante. Antes de utilizar novos produtos químicos, precisamos ter certeza absoluta de que são seguros”, afirma Dina Akhmetshina, especialista em políticas públicas da ONG americana U.S. PIRG.
O único estudo postado até o momento sobre a segurança do insumo foi feito por cientistas da Bayer. Isso levanta questionamentos sobre as conclusões. Até o momento, nenhum estudo independente foi postado sobre o icafolin, segundo o banco de dados PPDB (Pesticide Properties DataBase), desenvolvido através da Universidade de Hertfordshire, no Reino Unido.
Críticas à aprovação antecipada através da Anvisa
A autorização do agrotóxico também tem pendências no Canadá, União Europeia e Estados Unidos. Por isso, a aprovação brasileira antes de outras agências regulatórias preocupa especialistas.
“É muito problemático a Anvisa ter aprovado antes de outras agências regulatórias, porque mostra que o princípio ativo ainda não foi devidamente analisado”, afirma Luiz Claudio Meirelles, ex-gerente da agência e pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz.
“É claro que precisamos substituir imediatamente o glifosato, que já se provou perigoso para a saúde humana, mas é preciso ter cautela na avaliação de novos agrotóxicos”, complementa.
A Anvisa estabeleceu limites de ingestão diária de resíduos da substância semelhantes aos do glifosato. Já o valor aceitável para a exibição de trabalhadores no campo será três vezes maior. Não houve comentários na consulta pública feita antes da reunião.
Como funciona o novo herbicida
Em artigo científico postado no ano passado, cientistas da Bayer explicam que o novo agrotóxico age bloqueando as funções fisiológicas de plantas invasoras de lavouras. Ao inibir o desenvolvimento de fios de tubulina, um tipo de esqueleto das plantas, a planta para de crescer e fica “congelada” no campo.
Esse é um mecanismo de ação distinto do glifosato, que bloqueia enzimas responsáveis através da produção de aminoácidos essenciais à vida das plantas. Em seu site, a Bayer afirma ter usado inteligência artificial para desenvolver a tecnologia.
Conforme a empresa, esse é o primeiro novo modo de ação para combater ervas daninhas já brotadas em mais de três décadas.
Pacote tecnológico e patentes
Enquanto aguarda a aprovação do registro, a Bayer também protocolou no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) uma patente para desenvolver sementes e plantas resistentes ao icafolin.
A estratégia é a mesma do Roundup: criar um “pacote tecnológico”, em que a empresa comercializa tanto o herbicida quanto as sementes resistentes ao agrotóxico. Nos últimos anos, a venda deste tipo de pacote aos produtores rurais transformou a Bayer em uma das maiores empresas de sementes do mundo.
A própria Bayer afirmou que, “na maioria dos casos”, o icafolin-metil será aplicado em combinação com glifosato no pulverizador. No Brasil, uma área superior a 50 milhões de hectares de soja , que é quase equivalente ao tamanho do território de Minas Gerais, é manejada com glifosato.
Depois de a inauguração do produto no Brasil, chefe no consumo de agrotóxicos, a Bayer pretende lançar o icafolin no mercado global. A empresa já pediu registro do princípio ativo e de patentes de sementes resistentes em uma dúzia de países.
Resistência de pragas ao Roundup
Conforme a base de dados internacional Weed Science, 62 espécies de plantas invasoras já estariam imunes ao Roundup. Desse total, 11 ocorrem no Brasil, incluindo o caruru-gigante (Amaranthus palmeri), que já é responsável por perdas milionárias na soja e no milho.
Para Steve Powles, especialista em culturas agrícolas e professor emérito da University of Western Australia, a resistência de ervas daninhas ao glifosato não surpreende. “Se você usar repetidamente o mesmo produto químico para controlar uma população variada de plantas daninhas, em algum momento surgirão plantas resistentes. É simples assim”, afirma.
Em 1998, Powles postou um dos primeiros estudos documentando a resistência ao glifosato. “Na época, eu previ que, se o glifosato continuasse a ser amplamente usado no milho e na soja, o herbicida perderia eficácia”, explicou.
Hoje, 30 anos depois de a inauguração, o Roundup já não pode mais ser usado sozinho. A Bayer inclusive já comercializa produtos à base de dicamba para complementar o herbicida.
Ciclo vicioso e alerta de especialistas
Segundo Bill Freese, diretor científico do Center for Food Safety (CFS), a introdução do icafolin e de novas sementes resistentes ao herbicida geram um alerta. Sua planejamento, localizada em Washington, D.C., age na defesa de sistemas alimentares e agrícolas sustentáveis.
Freese compara o icafolin ao dicamba, herbicida usado como complemento ao glifosato. Nos Estados Unidos, a deriva do produto causou danos a milhares de hectares de plantações vizinhas. Com o tempo, o dicamba também contribuiu para o surgimento de plantas daninhas resistentes. “Ou seja, gerou outros problemas”, afirma.
“Em vez de buscar soluções reais, eles desenvolvem culturas geneticamente modificadas que ampliam as vendas de herbicidas e geram ainda mais resistência em plantas daninhas — um ciclo vicioso altamente lucrativo para eles, mas totalmente insustentável”, avalia Freese.
OMS classifica glifosato como provavelmente cancerígeno
Dina Akhmetshina, da U.S. PIRG, diz estar preocupada tratando-se de um insumo que precisará ser usado em grande escala. Ao anunciar os pedidos de registro do icafolin, a empresa afirmou que o herbicida tem um “perfil excepcional” de segurança.
A pesquisa da Bayer afirma que o icafolin-metil se degrada de forma rápida no solo e que parte da substância se transforma em gás carbônico (CO₂). Os testes foram feitos em condições controladas de laboratório e, segundo especialistas, não refletem o real comportamento da substância em campo.
Akhmetshina lembra que, no caso do Roundup, estudos independentes levaram décadas para associar o produto ao risco de câncer. Em 2015, a IARC, uma agência da Planejamento Mundial da Saúde (OMS), avaliou o glifosato como provavelmente cancerígeno para humanos.
“A IARC nunca retrocedeu nesta classificação, mesmo com todas as pressões. E é um órgão muito conservador”, observa Luiz Claudio Meirelles.
Pressão financeira sobre a Bayer
A inauguração do icafolin ocorre em meio à pressão de investidores sobre a Bayer. Existe dez anos, a empresa responde a alegações nas cortes americanas de que o herbicida causa câncer. Até hoje, a empresa já desembolsou mais de R$ 50 bilhões em indenizações.
Para 2026, a empresa projeta mais R$ 29 bilhões para custear as 60 mil ações judiciais que seguem pendentes. Em uma teleconferência com investidores no mês de março, o CEO da Bayer, Bill Anderson, sinalizou que a empresa passa por um momento difícil.
Para sobreviver à crise, a Bayer produziu uma estratégia que inclui a inauguração do icafolin, que deve gerar R$ 4 bilhões de vendas iniciais. Procurada, a assessoria de imprensa da Bayer no Brasil informou que a empresa não se manifestaria sobre o novo produto.
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Fonte: Tribuna do Planalto



