Por Arthur Oliveira*
A exibição “O olho de vidro sobre o sagrado vivo”, em cartaz no hall de entrada do Palácio Maguito Vilela, sede da Assembleia Legislativa de Goiás (Alego), gerou polêmica depois de declarações do deputado Amauri Ribeiro (União Brasil), conhecido como Deputado do Chapéu. Durante sessão ordinária e também em publicações em redes sociais, o parlamentar criticou a mostra que reúne obras inspiradas nas religiões de matriz africana, associando os elementos expostos à “adoração ao demônio”.
A exibição, aberta na quarta-feira (5), conta com curadoria de Laís Rocha e apresenta trabalhos de dez artistas do Coletivo Onã, grupo estabelecido por jovens do Terreiro Morada do Cruzeiro. A mostra exibe utensílios religiosos, vestimentas, fotografias, telas e esculturas que retratam símbolos e entidades das tradições afro-brasileiras, como o candomblé e a umbanda.
Em discurso na tribuna, Amauri Ribeiro relatou seu desconforto ao visitar o espaço. “Eu me deparei no saguão da Assembleia com a exposição de tranca rua, com pomba gira, com exu, com cabeça de vaca, com vela, com oferenda. Me desculpe, eu respeito todas as religiões, mas religião, para mim, é aquela que tem ligação com o único Deus”, declarou o parlamentar, reforçando sua visão sobre o tema.
No mesmo dia, Amauri publicou em suas redes sociais se defendendo que a fala não tem nada haver com intolerância religiosa, e sim, com o local e tipo de objetos expostos.
Já na quinta-feira (06/11), durante a apreciação da Ordem do Dia, Amauri voltou a se pronunciar, falando compreender a necessidade da liberdade religiosa e da pluralidade cultural, mas sustentando que algumas imagens expostas “poderiam ser interpretadas como desrespeitosas” por parte dos cidadãos cristã. O deputado afirmou não ter a intenção de ofender outras crenças, mas destacou seu direito à opinião.
“Eu não ofendi nenhuma religião, não pratiquei nenhum desrespeito. Mas tenho o direito de dar a minha opinião”, falou. Ele acrescentou que algumas representações destoavam dos valores aprendidos em sua formação religiosa: “Cresci aprendendo que determinadas figuras simbolizam o mal, e essa é a minha compreensão pessoal.”
Amauri também afirmou que havia um acordo prévio para reorganizar ou retirar parte das peças da exibição depois de dialoga com a Presidência da Casa, o que, segundo ele, “não teria sido cumprido integralmente”. O parlamentar defendeu que manifestações culturais precisam respeitar igualmente todos os segmentos religiosos. “Houve um compromisso de que algumas imagens seriam retiradas, e isso não ocorreu até o momento”, pontuou.
A exibição tem o suporte do presidente da Comissão de Cultura, Esporte e Diversão da Alego, deputado Mauro Rubem (PT), que reagiu às falas de Amauri Ribeiro durante a mesma sessão. Em defesa da mostra, Rubem destacou que o Estado é laico e que a intolerância religiosa é crime, conforme a Lei nº 7.716/1989, que estima penalização para discriminação por motivos religiosos.
“A Constituição é muito clara: o Brasil é um Estado laico. É garantido o direito de todas as formas religiosas. Intolerância religiosa é crime tipificado claramente nas regras que o país já tem”, afirmou Rubem, ao reforçar que a exibição é uma celebração da diversidade e da ancestralidade afro-brasileira.
Exibição
Aberta ao público até o dia 18 de novembro, a mostra continua com entrada gratuita no hall da Alego. O acontecimento integra várias atividades culturais que procuram promover o reconhecimento das expressões religiosas de matriz africana e o enfrentamento ao preconceito.
A polêmica, no entanto, expõe outra vez o choque entre fé e política dentro da Assembleia Legislativa, levantando discussões sobre os limites da liberdade de expressão dentro da casa de leis. “Portanto, se tem aqui a possibilidade de fazer uma missa da igreja católica ou um culto da igreja evangélica, é o mesmo direito que as religiões de matriz africana tem para fazer seus rituais e apresentar essa exposição”, finalizou o deputado petista.
*Estagiário sob a supervisão de Andréia Bahia
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Deputado do Chapéu critica exibição sobre religiões de matriz africana na Assembleia
Fonte: Tribuna do Planalto



